domingo, 6 de maio de 2018

Astrofísica no Sertão: Radiotelescópio Será Erguido no Interior da Paraíba

Olá leitor!

Segue abaixo um interessante artigo postado ontem (04/05) no site da “Revista Galileu” destacando que um radiotelescópio será erguido no interior da Paraíba.

Duda Falcão

ASTRONOMIA

Astrofísica no Sertão: Radiotelescópio
Será Erguido no Interior da Paraíba

Instrumento vai colaborar com os estudos sobre as
misteriosas matéria e energia escuras

Por Roger Marzochi
Edição: Nathan Fernandes
Design: Mayra Martins
Ilustradores convidados: Denis Freitas e Iago Novais
Revista Galileu
04/05/2018 – 14h05
Atualizado 14h0505

(Ilustração: Denis Freitas)

A Cidade de Aguiar, no sertão da Paraíba, distante 424 quilômetros de João Pessoa, entrou em alvoroço em junho do ano passado. Gente de São Paulo e até do estrangeiro começou a frequentar o município de 5.530 habitantes castigado pela seca. O destino dos forasteiros era a Serra do Urubu, para onde instrumentos de medição foram levados — um lugar abençoado pela falta de antenas de rádio e de celular, ou seja, sem nenhuma interferência.

“Em 56 anos, desde a fundação de Aguiar, não tivemos visita de pessoas estranhas”, recorda o prefeito Lourival Lacerda Leite Filho (PTB). Por uma crença antiga de que haveria ouro naquela serra, correu pela localidade o boato de que aqueles homens haviam sido contratados por uma mineradora para extrair as riquezas da terra. Mas o verdadeiro tesouro virá do céu.

No segundo semestre, será iniciada a construção de um dos maiores radiotelescópios para “ouvir” o Universo. Há quem ainda não acredite. “Telescópio para eles é coisa que não existe, é mais fácil acreditar no ouro”, diz o prefeito de Aguiar. Não está de todo errado. Na ciência, uma das grandes corridas do ouro está em desvendar um grande mistério: o que são a matéria e a energia escuras, que representam nada menos que 96% do Universo?

Esse é o desafio do projeto que será instalado no sertão paraibano, do qual participam pesquisadores brasileiros, ingleses, chineses, suíços e uruguaios. Esses misteriosos elementos contribuíram para a formação das galáxias e ainda influenciam na estrutura cósmica.

“Pode ser que não surja nenhuma grande novidade”, explica Elcio Abdalla, físico da USP e coordenador do projeto. “Mas se descobrirmos algo por trás da matéria e da energia escuras, será o mesmo que descobrir um universo paralelo.” Sabe-se que a matéria escura tem um efeito gravitacional sobre os elementos, formando filamentos que interligam galáxias. Já a energia escura seria uma força oposta à gravidade, que repele a matéria. Ambas, contudo, não emitem luz nem interagem com ela. E é aí que entra o nosso Bingo.

Trata-se do acrônimo em inglês de um nome que assusta: Observações de Gás Neutro das Oscilações Acústicas Bariônicas. Calma! Nem é tão complicado assim. Bárion é um próton ou um nêutron dentro do núcleo de um átomo. A pesquisa vai trabalhar com o elemento mais abundante no Universo: o hidrogênio. E essa matéria vibra. Para entender, é preciso voltar no tempo, até 380 mil anos após o Big Bang, quando a chamada radiação cósmica de fundo foi emitida.

Ela contém marcas da vibração dos átomos de hidrogênio, que pode ser captada como ondas de rádio. “É como se muita gente estivesse no mar, cada um provocando ondulações. Quando vem a onda, ela carrega para a praia essas ondulações, que contêm informações sobre como as pessoas estavam se movendo”, compara Luciano Barosi, físico da Universidade Federal de Campina Grande, que também integra o projeto.

O radiotelescópio será composto de duas antenas parabólicas que devem ficar prontas até o fim deste ano. Elas vão coletar as radiações e direcioná-las a 50 captadores chamados de “cornetas”, que são como ouvidos eletrônicos. Cada um terá 4,6 metros de comprimento e 2 metros de abertura frontal, com a função de concentrar radiações e enviar dados aos computadores.

Além de abundante, o hidrogênio é atraído pela matéria escura. “Ele pode ser um traçador de como a matéria se comporta no Universo. Só sabemos que nossa galáxia é espiral pela densidade da emissão de hidrogênio, cuja variação mostra a estrutura”, explica Carlos Wuensche, astrofísico do Inpe membro do projeto. “Vamos estudar como o hidrogênio se acumulou para formar as grandes estruturas de matéria observadas hoje, além da matéria e energia escuras.”

E o Bingo não estará sozinho. O projeto brasileiro contribuirá com dados para dois outros radiotelescópios: o Chime, já em operação no Canadá, e o Tianlai, que está sendo construído na China, com um espelho de 500 metros de diâmetro.

O projeto no Brasil ainda beneficiará o Square Kilometre Array (SKA), maior radiotelescópio em construção no mundo, com milhares de antenas espalhadas pela Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Deve ficar pronto em 2021. “O SKA deve se beneficiar diretamente de alguns resultados obtidos pelo Bingo, particularmente dos detalhes da instrumentação e da caracterização do ruído presente, que afeta as medidas”, diz Wuensche.

Apesar da crise, o governo brasileiro aprovou, em 2016, uma verba de R$ 10,5 milhões para o projeto. Apenas R$ 500 mil foram liberados em 2017. O investimento total gira em torno de US$ 5 milhões (cerca de R$ 17 milhões). Os recursos extras virão dos outros países integrantes, que também colaboram por meio de 30 pesquisadores.

O empreendimento levanta esperanças em Aguiar, cidade que depende exclusivamente do repasse do Fundo de Participação dos Municípios, do programa Bolsa Família e aposentadorias rurais. A população vive basicamente da agricultura de subsistência, plantando feijão e milho. De acordo com o IBGE, a renda média mensal é de um salário mínimo e meio e só 7,3% das pessoas têm ocupação.

Leite Filho espera que o Bingo se torne um ponto turístico e impulsione a economia local. Além dos benefícios à ciência, haverá projetos com os estudantes da região. “Em um local que não tem universidade, o equipamento motivará as pessoas para a ciência”, diz Barosi. “Vai interagir com a sociedade e com a educação.”

Ouvidos Cósmicos

(Ilustração: Iago Novais)

Antenas terão 40 e 45 metros, o equivalente a um campo de futebol.

(Ilustração: Iago Novais)
Bingo.

Bingo será construído na Serra do Urubu, em Aguiar (PB), localizado a 424 km da capital, João Pessoa

Sem Ruídos

O consórcio Bingo escolheu a Serra do Urubu para evitar interferências: não há antenas de rádio ou celular por perto

(Ilustração: Iago Novais)
Serra do Urubu.

Fonte: Baryon Acoustic Oscillations In Neutral Gas Observations (Bingo)

Fonte: Site da “Revista Galileu” - 04/05/2018 - https://revistagalileu.globo.com

Comentário: Pois é leitor, como você mesmo pode observar enquanto o PEB patina sem rumo, a Astronomia e a Astrofísica brasileira avançam até mais rápido do que se poderia imaginar. Realmente a Comunidade Astronômica do país está de parabéns, e só lamentamos o fato da chamada Astronomia Espacial ainda ser muito incipiente no Brasil, tendo apenas (até onde sei) um único projeto em curso que é a missão Lunar da Garatéa-L. Como agora a plataforma cubesat está disponível, abre-se um leque de boas possibilidades para se desenvolver projetos nesta área muito mais baratos. Vamos lá galera.

2 comentários:

  1. Hola, sigo tu blog, pues es todo un oasis para encontrar la actualidad del espacio en Brasil...

    ¿Tienes información sobre como evoluciona Garatea-L y si está siendo bien financiada?

    ¿El cohete VLM-1 cuando crees que lo veremos en acción?

    s2 y gracias

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    1. ¡Hola Erick!

      Bueno, primero muchas gracias por la fidelidad como lector de nuestro Blog. En cuanto a Garatéa-L, yo diría que el proyecto viene evolucionando bien, y el Grupo Zenith de la USP de São Carlos (grupo responsable del proyecto) realizó el día 22/04 el lanzamiento exitoso (a través de un globo estratosférico) de la Misión Garatéa- 3, misión esta que busca entre otras cosas probar tecnologías que serán empleadas en la sonda lunar Garatéa-L. Esta sonda lunar estaba prevista para ser lanzada en 2021, pero oye un retraso de 1 año en el desarrollo del lanzador indio que realizará la misión, y así ahora deberá ser lanzada en 2022.

      En cuanto al cohete VLM-1, el gobierno brasileño divulgó que su primer vuelo de calificación debe ocurrir en 2019, pero sinceramente Erick dudo mucho de eso, y ni siquiera sé si este proyecto saldrá del papel antes de que los alemanes desistan de esta asociación y deciden por realizarla solos.

      Saludos desde Brasil

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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